Lenda de Maria Florzinha (1)

27 de novembro de 2023 Off Por João Antunes

Lenda de Maria Florzinha (1) por Alexsandra Lacerda de C. Trigueiro.

Texto extraído da coluna Funes do Jornal a União publicado na data de 24/11/2023.

O folclore oferece um campo muitovasto para os pesquisadores que exaltam a história de um povo e é, por isso,que permanece vivo e nenhum desenvolvimento tecnológico pode extingui-lo. Se o folclore é a mistura de variadasculturas, ele jamais morrerá, porque estará sempre renascendo, mesmo de forma diferente, cumprindo seu objetivomaior: retratar a história de um povo e suas variadas manifestações.

Compreendo que para falar sobre folclore é preciso mergulhar em todas as manifestações culturais populares de um povo. A Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) apresenta o folclore como Patrimônio Cultural Imaterial, considerando que sua preservação é de suma importância.

Os elementos folclóricos relacionados a um povo podem ser vistos e compreendidos a partir de narrativas, contações de histórias, parlendas, lendas, danças e músicas, entre outras manifestações. Assim pensando, falar de folclore é, sobretudo, processar formas de comunicação, de propagação das informações culturais.

O folclorista Luís da Câmara Cascudo afirma que é um equívoco dizer que a máquina asfixia o folclore, pois o folclore é mantido pela mentalidade do homem e não determinado pelo material manejado.

Na história literária, inúmeros intelectuais lutaram para resgatar e valorizar o folclore brasileiro. Enquanto Cascudo defende o folclore dizendo que ele é imortal, Mário de Andrade usa o discurso da perda e, por isso, clamava pelo seu resgate imediato.

Considerando as palavras de Câmara Cascudo (1967, p. 18), “nascemos e vivemos mergulhados na cultura da nossa família, dos amigos, das relações mais contínuas e íntimas, do nosso mundo afetuoso”, quero iniciar a narração das marcas que o folclore deixou em mim.

Minha casa sempre foi cheia de livros e, graças a minha mãe, tive acesso à leitura muito cedo. Havia uma biblioteca, com estantes de alvenaria cheia de livros, os mais diversos, inclusive os didáticos.

Também herdei de minha mãe a profissão: sou pedagoga, educadora infantil e contadora de histórias para criança. E minha mãe foi além da figura materna, foi minha professora e, com ela, aprendi a arte de contar histórias, criar elementos mágicos para atrair as crianças, destaco o avental, o tapete e os fantoches todos coloridos e muito atrativos.

Por outro lado, tive uma infância rica de brincadeiras e experiências. Nessa fase, é muito comum ouvirmos histórias e lendas, todas vindas do imaginário popular, sem nenhuma referência biográfica.

Meus maiores amigos de infância foram meus irmãos, primos e as crianças da vizinhança. Todas as noites brincávamos de bola, andávamos de bicicleta e frequentávamos as noites de novena organizadas, de casa em casa,sob a coordenação de D. Dalva Leitão e D. Ângela no Bairro da Maternidade na cidade de Patos (PB).

Costumeiramente, após o jantar eu, meus irmãos e meus primos corríamos para a calçada para decidir qual seria a brincadeira da noite. Tínhamos muitas opções: matada, futebol, vôlei, garrafão, elástico, contar histórias, pular corda, brincar de roda, de barra bandeira, de “toca”, entre outras brincadeiras.

Mas, o que era peculiar, nessas noites de intensa interação lúdica, que jamais serão esquecidas, porque ficaram registradas na memória afetiva, era o encerramento, a despedida da turminha que sempre evocava histórias populares, entre elas a história de Comadre Florzinha ou Maria Florzinha. Esse era o momento da curiosidade, do medo, do espanto.

Como tínhamos medo dessa personagem! Maria Florzinha surgiu no nosso grupo quando, ainda crianças, íamos para o sítio do meu avô, passar as férias ou feriados prolongados. A casa da fazenda tinha calçada alta, bem convidativa para brincar de anel e contar histórias. Nesse cenário, pela primeira vez, apareceu a história de Maria Florzinha.

Comadre Florzinha é uma lenda brasileira, uma das mais famosas do Nordeste, sobretudo da Paraíba e Pernambuco. Uma criatura do folclore brasileiro, muito famosa, mas não muito divulgada pelo público, pelas escolas ou instituições culturais. Bem diferente da Cuca, do Saci Pererê, da Mula Sem Cabeça, do Curupira, do Lobisomem, do Papa-Figo.

Na nossa concepção, a lenda era de Maria Florzinha e não Comadre Florzinha. Chartier (1990) corrobora com esse entendimento, quando enfoca que há uma real significação social dos textos, das narrativas ou histórias, justificada no fato da sua circulação e apropriação, visto que sempre há uma discrepância entre o sentido atribuído pelo autor da história e o sentido dado pelos leitores, mesmo se tratando da história oral.

Assim sendo, uma mesma história pode apresentar variadas possibilidades de interpretação, em decorrência do suporte do tempo histórico, do grupo social que realiza a leitura ou a oralidade.