O som do trombone encontra o Sertão
22 de maio de 2026Sucesso na internet por Roberta Livia de Sousa Gomes.
Texto extraído da coluna FUNES do Jornal A União publicado na data de 22/05/2026.
Durante os dias 14, 15 e 16 de maio de 2026, Patos recebeu músicos, professores, estudantes e apaixonados pelo trombone para o 11° Encontro de Trombonistas da Paraíba, transformando o Sertão em ponto de encontro entre tradição, formação e arte.
Por alguns dias, o som dos trombones ecoou em oficinas, ensaios e apresentações, aproximando profissionais de referência nacional de jovens músicos.
Organizado pela Associação de Trombonistas da Paraíba (ATPB), com apoio da Fundação Ernani Sátyro, o encontro reafirmou algo que Patos já demonstra há muitos anos: cultura não é privilégio dos grandes centros. Cultura também
floresce onde existe encontro, disposição para ensinar e vontade de aprender.
Falar de um encontro de trombonistas também é falar da história. Acredita-se que o trombone tenha surgido por volta do século 15 como evolução de antigos modelos de trompete. Desde o início, uma característica permaneceu inalterada até os dias atuais: a vara, mecanismo responsável por alterar a altura das notas e que acabou se tornando uma das identidades mais marcantes do instrumento.
Nos séculos 15 e 16, o trombone já ocupava espaço em bandas populares europeias, acompanhando danças e festividades. Mas havia algo em seu timbre que chamava atenção: sua sonoridade próxima da voz humana. Por tal fato passou a integrar conjuntos religiosos e acompanhar corais em igrejas.
Compositores como Mozart e Beethoven levaram o instrumento para dentro das orquestras. Curiosamente, o trombone não aparecia o tempo todo, era reservado para momentos especiais, muitas vezes ligados ao divino, ao sobrenatural e ao sagrado. Em diversos tratados musicais, chegou a ser chamado de “a voz de Deus”.
No Brasil, o trombone ganhou espaço nas bandas militares, filarmônicas, bandas marciais, grupos de frevo, conjuntos de samba, forró, bandas sinfônicas e projetos populares espalhados pelo país.
Foi, justamente, acreditando nessa força coletiva da música que nasceu, em 2015, na cidade de João Pessoa, a Associação de Trombonistas da Paraíba.
Criada por estudantes de Música da Universidade Federal da Paraíba, a ATPB surgiu para fortalecer a comunidade de trombonistas paraibanos e ampliar oportunidades de formação artística.
Hoje, presidida por João Paulo Silva, a associação realiza encontros que promovem não apenas o estudo do trombone, mas experiências de convivência, escuta e construção artística.
E foi exatamente isso que Patos recebeu. Três dias em que Patos respirou música.
A programação reuniu atividades distribuídas entre a Fundação Ernani Sátyro e a Concha Acústica Nilson Batista.
Entre os convidados estiveram nomes importantes da cena instrumental brasileira, como o professore Michele Girardi, Mauro Madruga, Neris Rodrigues, além dos músicos Marlon Barros e Gilvando Azeitona, que conduziram aulas, demonstrações e momentos de troca artística.
Também participaram grupos que ampliaram ainda mais a diversidade sonora do encontro, como a Big Band Rubacão Jazz, o Litoral Bones, ambos de João Pessoa, além da tradicional Filarmônica 26 de Julho, representando Patos e reafirmando o papel histórico das bandas filarmônicas na formação musical do interior.
Talvez uma das imagens mais bonitas deixadas pelo encontro tenha sido justamente essa: professores e artistas saindo das capitais para ocupar o interior.
Ao comentar sobre a experiência vivida em Patos, o professor Michelle Girardi destacou algo que parece resumir o espírito do evento.
Segundo ele: “Encontros como esse se tornam ainda mais relevantes quando acontecem fora dos grandes centros urbanos, porque permitem alcançar regiões onde o acesso à formação musical especializada costuma ser mais difícil”.
Para o professor, o mais valioso não é levar respostas prontas, mas criar trocas. Compartilhar caminhos, discutir métodos, ouvir dúvidas e construir juntos novas formas de aprender.
Por isso, eventos como o 11° Encontro de Trombonistas da Paraíba continuam sendo tão necessários.
E durante três dias, em Patos, o som do trombone não apenas ecoou: ele ficou! Transformando notas em encontros e som em memória.
