Entre linhas, agulhas e mãos (1)
15 de junho de 2026Entre linhas, agulhas e mãos (1) por Tâmara Costta.
Texto extraído da coluna FUNES do Jornal A União publicado na data de 12/06/2026.
A minha relação com o artesanato iniciou no ano de 2019. Eu estava decidida a mudar a minha vida, a forma como me sentia enquanto mulher e o meu propósito de vida em meio a sociedade. Dentro de mim havia uma necessidade de ressignificar a minha história como ser humano e estava em busca de transmutar minhas dores e anseios em sentimentos de leveza e paz. Sentia a necessidade de uma reconexão com o meu eu e com a mulher em mim. Sempre fui encantada pela arte, ainda criança lembro-me de nutrir a vontade de ser professora de Artes, bem como em algum momento da minha juventude pensei na possibilidade de estudar Moda. Cresci, me formei em Fisioterapia. A decisão para a escolha dessa profissão veio ao ler um texto sobre a área e no foco em “usar as mãos” para levar alívio as dores das pessoas, isso sefixou na minha mente. Segui em frente, me formei e no trabalho conheci uma artesã que me presenteou com uma agulha de crochê e um tubo de linha. Ela me ensinou os pontos básicos e assim fui em busca de desenvolver a técnica. O amor pelo uso das mãos cresceu ainda mais, tanto no meu trabalho como fisioterapeuta como para usar as mãos e criar algo do nada com linhas, cordões, fios, agulhas, galhos… Nessa busca para reencontrar a minha essência feminina, penso que fui encontrada pela “arte de usar as mãos” e desde de então sigo uma jornada em meio ao artesanato e ao conhecimento de mim.
Com passar dos anos fui sendo apresentada a outras técnicas manuais e logo chegou o bordado. Foi amor à primeira vista! E desde então, tiro alguns minutos todos os dias para bordar, seja um porta maternidade ou aliança, peças de vestuário, mensagens e tantas outras peças. O artesanato proporcionou o resgate do meu eu, a autorregulação emocional, o ato de me acolher e de me sentir pertencente a mim mesma! Dedicar um tempo para mim, o meu momento, refletir sobre a minha existência como pessoa e organizar as ideias foi fundamental para o meu amadurecimento e reconstrução interna. Ter um hobby contribuiu, significativamente, para desenvolver o meu autoconhecimento, alívio de ansiedade, redução do estresse e a minha relação com o tempo. Eu sempre achava que estava atrasada, e por esse motivo ficava com pensamentos acelerados. Aprender a parar, a estar presente no “agora”, viver o momento atual mudou a forma de enxergar a vida e está em atenção plena diminuiu significativamente a preocupação com o futuro! Viver o aqui e o agora com consciência, sem pressa, sem cobrança, apenas me dedicando ao momento presente mudou consideravelmente a minha qualidade de vida e a forma de me expressar para o mundo, de maneira mais saudável e equilibrada.
Outro fator bastante importante foi me permitir errar, desfazer um ponto ou refazer todo um trabalho, antes tinha que sair perfeito, cada ponto do mesmo tamanho, a linha contorcida na mesma proporção na carreira, o galho mais liso possível, as letras no mesmo formato. Porém, durante o meu percurso no artesanato compreendi que sou humana e que jamais a mesma peça sairá igual a outra. Aprendi que na arte até uma linha mal posicionada, um galho torto, uma carreira de pontos irregular pode virar uma nova forma de expressão, significado ou até mesmomudar o contexto final da peça. Lidar com pequenos erros e desafios fortalece habilidades cognitivas e emocionas. Essas possibilidades nos
faz desbloquear todo o nosso potencial criativo, mudando a perspectiva e reduzindo os temíveis pensamentos negativos.
Ao realizar um trabalho manual sinto como se o tempo parasse, me traz paz de espírito. Nessa suspensão do tempo é como flutuar por um espaço, onde não existe a impossibilidade, a autocrítica, o perfeccionismo, o sentimento de culpa, o medo de errar, as comparações com outras pessoas, a autocobrança e tantos outros sentimentos prejudiciais que afetam tanto a parte emocional como física.

