Quando uma história deixa de ser apenas memória (2)

9 de outubro de 2026 Off Por Funes Patos

Quando uma história deixa de ser apenas memória (2) por Larissa Batista Moreira. 

Texto extraído da coluna FUNES do Jornal A União publicado na data de 09/10/2026.

 

É fácil pensar que determinadas histórias pertencem ao passado. Que, depois de algum tempo, elas deixam de conversar com o presente. Mas algumas não envelhecem. A trajetória de irmã Fernanda é uma delas, porque toca em uma questão que continua absolutamente atual: afinal, o que significa educar? Para Damião, sua história permanece importante porque nos lembra que educação não é apenas transmissão de conhecimento. É também formação de pessoas, cultivo de valores, desenvolvimento de sensibilidades e construção de possibilidades. E isso muda bastante a maneira de enxergar o educador.

Porque talvez educar não seja somente ensinar alguém a fazer alguma coisa, mas também ajudar alguém a descobrir quem pode ser. É essa união entre competência e humanidade que aparece como um dos grandes legados de irmã Fernanda. Compromisso, cuidado, competência, sensibilidade e formação humana são algumas das palavras escolhidas por Damião para traduzir aquilo que ficou de sua trajetória. Mas um legado não existe apenas porque foi deixado, ele precisa encontrar quem esteja disposto a carregá-lo.

Existe uma diferença entre pesquisar uma história e conseguir fazer com que outras pessoas se reconheçam nela. Durante o lançamento, isso se tornou especialmente evidente para Damião. Pessoas que conviveram com irmã Fernanda reconheceram, nas páginas do livro, aspectos de sua personalidade, de sua presença e de sua maneira de educar. E outras, que nunca tiveram a oportunidade de conhecê-la, puderam encontrá-la pela primeira vez através da escrita. Foi nesse momento que a pesquisa ganhou outro significado. Deixou de ser apenas acadêmica e tornou-se memória compartilhada. E talvez seja essa uma das maiores riquezas de registrar histórias: permitir que aquilo que antes pertencia somente às lembranças de algumas pessoas possa alcançar outras que nunca estiveram ali. Uma memória, quando escrita, não fica presa ao passado. Ela pode ser revisitada, questionada e principalmente, continuar produzindo sentido.

Damião conta que ver o livro chegando às mãos dos leitores significa testemunhar a concretização de uma trajetória de muita dedicação. Mas existe algo curioso em todo livro que nasce de uma história real: quando finalmente chega ao leitor, ele deixa de pertencer somente a quem o escreveu. Cada pessoa encontra alguma coisa diferente: para uns será a lembrança de irmã Fernanda, para outros, será a descoberta de uma mulher e educadora que nunca conheceram. E ainda terá aqueles que ficarão com uma pergunta incômoda e necessária sobre a própria maneira de educar, ensinar e se relacionar com o outro.

É justamente isso que ele espera que aconteça. Que a obra desperte admiração, mas também perguntas. Que faça o leitor pensar sobre que tipo de educador deseja ser e sobre como competência, ética e sensibilidade podem caminhar juntas. Seu desejo é que a história continue sendo lida, compartilhada e reinterpretada por diferentes gerações. E talvez seja aí que esteja o verdadeiro sentido de transformar uma memória em um livro, não deixá-la ser esquecida, dando a ela uma oportunidade de continuar dentro de quem a lê.

A história de irmã Maria Fernanda Marabello agora está nas páginas de um livro. Mas o que ela representa ainda pode encontrar muitos caminhos. Porque algumas pessoas passam pela nossa história e deixam uma parte delas, e existem aquelas que, mesmo depois de muitos anos, continuam nos ensinando alguma coisa através de pessoas que elas marcaram.

Damião Fernandes é professor universitário, filósofo, poeta. É mestre em Educação Popular (UFPB) e doutor em História da Educação (UFPB). Além disso é fundador da Obra Alégrate de Maria em Cajazeiras. Todo o valor arrecadado com as vendas do seu livro está sendo destinado à construção da capela e casa da obra.