Memória e resistência indígena
19 de outubro de 2026Memória e resistência indígena por Sarah Cristinne Firmino.
Texto extraído da coluna FUNES do Jornal A União publicado na data de 16/10/2026.
Recentemente, o documentário Yby xe rekoápe (A terra que nos habita), dirigido por Wallace Santos e Sanderline Ribeiro, me atravessou de uma forma difícil de explicar logo nos primeiros minutos. Talvez porque, enquanto assistia às imagens das aldeias potiguara no Litoral Norte da Paraíba, eu tenha lembrado imediatamente de um poema de Oswald de Andrade estudado ainda na escola (espaço onde muitos de nós tivemos os primeiros contatos com a história dos povos indígenas, mas poucas vezes voltamos a refletir sobre ela depois disso). O poema dizia: “Quando o português chegou / Debaixo duma bruta chuva / Vestiu o índio / Que pena! / Fosse uma manhã de sol / O índio tinha despido / O português”.
Durante anos, o poema modernista foi interpretado como uma crítica à colonização e à imposição cultural europeia sobre os povos originários. Mas assistir a Yby xe rekoápe fez esse texto ganhar outro sentido dentro de mim. Porque o documentário parece justamente retirar as camadas coloniais que ainda tentam cobrir a identidade indígena brasileira, revelando pessoas reais, saberes vivos e histórias que seguem existindo, resistindo e sendo transmitidas entre gerações.
Realizado através da Lei Paulo Gustavo, o filme percorre aldeias localizadas em Baía da Traição, Marcação e Rio Tinto, acompanhando seis mulheres indígenas do povo potiguara. Mulheres que preservam conhecimentos ancestrais ligados à espiritualidade, à cura, ao parto, à educação e à memória coletiva de seu povo. O filme inicia com o canto dos pássaros. E talvez não exista abertura mais simbólica. Antes da escrita oficial da história do Brasil, existiam os sons da terra, a oralidade, os rituais, os cantos e os conhecimentos transmitidos pela escuta. O filme entende isso com sensibilidade, não há pressa na narrativa, há respeito.
No documentário, elas são apresentadas a partir de suas trajetórias e saberes. Mãe Zita de Aloá compartilha sua relação com a Jurema Sagrada, as rezas, os cantos e as forças da natureza, revelando a espiritualidade indígena como parte viva do cotidiano potiguara. Penha, parteira responsável por trazer ao mundo centenas de crianças, carrega uma das falas mais fortes do filme ao afirmar: “Dizem que eu sou bruxa. Mas eu não sou bruxa”. É impossível não pensar em quantas mulheres, ao longo da história, tiveram seus conhecimentos demonizados apenas por dominarem saberes
sobre o corpo, a cura e a vida.
Outra figura marcante é Nancy, reconhecida como a primeira prefeita indígena da região, que relembra os inúmeros partos realizados ainda jovem e o ensinamento compartilhado entre mulheres das aldeias. O documentário também apresenta Pajé Fátima, Zulmira (importante liderança ligada ao sindicato dos trabalhadores rurais) e Pajé Amanacy, filha de Zulmira, que hoje luta para ampliar a presença e a representatividade indígena dentro da universidade. Sua reflexão sobre instituições construídas próximas aos territórios indígenas, mas que durante muito tempo ignoraram a existência desses povos, talvez seja uma das provocações mais atuais do filme.
Os potiguaras, povo do tronco tupi, formam hoje o maior povo indígena do Nordeste brasileiro. Eles resistiram à colonização, às disputas territoriais, às epidemias e aos diversos processos de apagamento cultural ao longo de mais de 500 anos. Ainda assim, permanecem no mesmo território desde o período da chegada dos colonizadores. Mais do que um documentário sobre memória, é um filme sobre permanência. Sobre um Brasil originário que nunca deixou de existir, embora durante muito tempo tenha sido tratado como passado. Existe um lema potiguara que diz: “A gente nasce, a gente vive, a gente morre, mas nosso povo viverá nesta terra para sempre”. Talvez seja exatamente por isso que obras como essa sejam tão necessárias: elas ajudam a devolver presença a quem tantas vezes foi reduzido ao silêncio dentro da narrativa oficial do país.
