Pagode e ecossistema (2)

20 de fevereiro de 2026 Off Por Funes Patos

Pagode e ecossistema (2) Por Francisco Anderson Mariano da Silva.

Texto extraído da coluna FUNES do Jornal A União publicado na data de 20/02/2026.

 

A entrada de Ítallo Menezes no Grupo Vegas marca um novo capítulo e carrega, ao mesmo tempo, alegria e receio. Alegria por integrar um projeto admirado e já consolidado; receio pelo peso do legado e pela pergunta inevitável: “Será que o público vai abraçar?”. Ele reconhece que a responsabilidade aumenta quando o projeto é grande, porque tudo vira custo, logística e profissionalismo: equipe, instrumentos, deslocamentos, repertório, imagem e planejamento. Ainda assim, a resposta do público, segundo ele, foi surpreendente e fortalecedora. Muita gente que duvidava passou a reconhecer a entrega, a energia e o encaixe dele no estilo. Ítallo insiste em um ponto ético que sustenta cenas artísticas fora dos grandes centros: respeito entre músicos. Ele recusa rivalidades, reforça que não há mérito em derrubar o outro e defende que a música cresce quando existe parceria. Essa postura não é apenas discurso; ela se conecta ao modo como o pagode funciona socialmente: uma roda depende de união, de ouvir o outro, de deixar espaço, de reconhecer o valor coletivo do som.

Cidade
Ao levar o nome de
Patos para onde vai,
Ítallo Menezes reforça
uma verdade: quando
um artista cresce com o
povo, não canta sozinho
— ele carrega uma
cidade inteira na voz

As referências musicais que ele cita também dizem muito sobre a identidade que está construindo. Ítallo fala com carinho de Sorriso Maroto e Thiaguinho, apontando uma preferência pelo lado romântico do pagode, aquele que mistura swing com sentimento e que faz a letra “bater” na vida real. Ele se emociona ao lembrar experiências marcantes, como estar perto de artistas que admira e participar de eventos que ampliam horizontes. Nesses momentos, não é só um cantor vivendo um sonho individual: é um representante de uma cena local aprendendo a dialogar com o cenário maior, trazendo de volta inspiração, repertório e confiança. Ao mesmo tempo, ele não esconde as dificuldades pessoais que enfrentou, como a perda do pai e as dores que isso trouxe. O modo como ele narra essa fase mostra que a música também pode ser abrigo: um lugar onde a pessoa reorganiza o que sente e encontra uma forma de continuar sem cair em caminhos destrutivos. A cultura, nesse sentido, não é enfeite: é suporte, é ferramenta de reconstrução.

Quando Ítallo fala de futuro, ele fala de reconhecimento, mas não no sentido vazio de fama. Ele fala como quem quer ver o esforço se materializar: gravar DVD, lançar música autoral, alcançar outras cidades, tocar em grandes eventos, subir degraus sem pressa, “com os pés no chão”, no tempo certo. Essa visão coloca o artista dentro de uma cultura de trabalho: a arte como profissão exige preparo, investimento, planejamento e paciência. E aqui a história dele ganha um significado mais amplo: Ítallo Menezes representa uma cultura em movimento, a do migrante que cria raízes sem negar as origens; a do trabalhador da arte que aprende fazendo; e a do músico que transforma palco em comunidade. Sua caminhada mostra que cultura não é só produto final, mas relação: com a cidade que acolhe, com amigos que dão chance, com parceiros que viabilizam eventos e com o público que responde. Ao defender humildade, perseverança e respeito, ele traduz valores que mantêm viva a cena cultural do interior. E, ao levar o nome de Patos para onde vai, ele reforça uma verdade simples: quando um artista cresce com o povo, ele não canta sozinho — ele