Quando Nobelina ganha voz

26 de junho de 2026 Off Por Funes Patos

Quando Nobelina ganha voz por Sarah Cristinne Firmino. 

Texto extraído da coluna FUNES do Jornal A União publicado na data de 26/06/2026.

 

Poucas personagens da literatura paraibana tiveram a oportunidade de viver duas vezes. Nobelina teve. Criada nos versos do poeta popular Zé Laurentino, um dos grandes nomes da poesia popular nordestina, a personagem retorna agora ao centro da cena cultural paraibana através de duas obras assinadas por sua filha, a escritora Cibele Laurentino: a segunda edição do romance Nobelina e o documentário Nobelina: de Zé por Cibele.

Os dois lançamentos foram apresentados ao público no dia 11 de junho, no Museu de Arte Popular da Paraíba (Mapp), em Campina Grande. Mais do que um evento literário, a ocasião celebrou a permanência de uma personagem que atravessou gerações, saiu da poesia popular e encontrou novos significados na literatura contemporânea. Para compreender a importância desse percurso, é preciso voltar algumas décadas: Nobelina nasceu nos versos de Zé, poeta, cordelista e mestre da oralidade sertaneja, transformando o cotidiano do interior em matéria literária, retratando com humor, sensibilidade e autenticidade os modos de vida do povo nordestino.

Foi em seu conhecido poema “Eu, a cama e Nobelina” que Nobelina foi apresentada através da memória de um homem apaixonado. O leitor a conhece por meio de sua aparência, de seus gestos e do encanto que desperta. “Não era lá muito feia / Não era também bonita / Mas tinha o corpo roliço / E os olhos da mulata / Parecia ter feitiço”, escreve o poeta.

Décadas depois, a personagem ganha voz por Cibele, que cresceu cercada pelas palavras do pai e pela força da literatura popular. No poema, sabemos como Nobelina é vista, porém pouco sabemos sobre o que pensa. O poema reflete seu tempo, sua tradição narrativa e a própria estrutura da literatura popular produzida em meados do século 20. Nobelina pertence a um universo rural nordestino onde as histórias eram, quase sempre, conduzidas por vozes masculinas. É justamente aí que reside a força do romance de Cibele Laurentino.

Ao revisitar a personagem criada pelo pai, a autora não tenta corrigir o passado. Ela dialoga com ele. Em vez de apagar a Nobelina original, amplia suas possibilidades. Se antes a personagem existia dentro da narrativa de um homem, agora assume o centro da própria história. A Nobelina do romance continua sertaneja, continua nordestina e continua habitando um mundo atravessado por tradições e expectativas sociais rígidas. Mas ela também sonha, questiona, deseja estudar e reivindica autonomia. Essa é talvez a principal qualidade da obra.

Ao se ler trechos do romance, percebe-se uma Nobelina que fala de amor, mas também de independência. Em uma das passagens mais significativas da narrativa, a personagem afirma que poderá seguir seu próprio caminho caso o casamento não corresponda às promessas feitas, porque possui uma profissão e pode sustentar a própria liberdade. A frase parece simples, mas desloca toda uma lógica historicamente imposta às mulheres de sua época.

A educação aparece como instrumento de emancipação. Não por acaso. A Nobelina de Cibele é filha de uma transformação histórica. Ela carrega em si as mudanças vividas por milhares de mulheres brasileiras que, ao longo das últimas décadas, passaram a ocupar espaços antes inacessíveis, conquistando autonomia econômica, formação intelectual e maior participação social. Mas talvez o aspecto mais bonito dessa travessia literária não seja apenas seu alcance social. Seja seu caráter afetivo.

Sua escrita aproxima a poesia popular da literatura contemporânea, transformando a memória em criação e o legado cultural em matéria viva. O romance encontra continuidade no documentário Nobelina: de Zé por Cibele, dirigido por João Alberto Laurentino e produzido pela própria autora. O filme acompanha justamente esse percurso, revelando a trajetória da personagem desde sua criação na poesia popular até sua reinvenção no romance. Mais do que registrar uma obra, o documentário propõe uma reflexão sobre herança cultural, afetos e permanência.

Há algo profundamente emocionante na ideia de uma personagem criada por um poeta popular continuar viva mais de 50 anos depois de sua primeira aparição. A nova edição do romance, que chega ao público com revisão editorial, novo projeto gráfico e apresentação renovada, reforça essa permanência. A capa e ilustrações dos capítulos são do artista plástico e litógrafo Alberto Diaz, o prefácio de Joseilda Diniz, orelha escrita pela autora Maria Valéria Rezende. Nobelina continua sendo a mesma, mas agora, finalmente, podemos ouvi-la falar.

 

Sarah Cristinne Firmino é escritora.