Um poeta jovem entre Patos e as raízes do Sertão
6 de fevereiro de 2026Um poeta jovem entre Patos e as raízes do Sertão Por Francisco Anderson Mariano da Silva.
Texto extraído da coluna FUNES do Jornal A União publicado na data de 06/02/2026.
Thiago Laurentino, 24 anos, é daqueles nomes que lembram que a cultura nordestina não depende apenas de “tempo de estrada”, mas de vivência. Nascido em Patos e com laços profundos em São José de Espinharas, ele transita entre o cotidiano administrativo — atuando na gestão pública, em funções de responsabilidade e rigor — e a delicadeza de quem escolhe a palavra como instrumento de memória. Essa dupla pertença (cidade e interior, rotina técnica e criação poética) aparece como marca de uma geração que não separa trabalho e identidade, já que organiza processos durante o dia e organiza sentimentos no verso, sem abrir mão do chão de onde veio.
O início declarado de sua caminhada poética tem data e cenário: janeiro, numa cantoria com mestres do repente. Ali, mais do que “nascer poeta”, Thiago percebeu que a poesia popular funciona como rito de passagem: você entra como ouvinte e sai com vontade de responder ao mundo em forma de verso. Mesmo sem domínio inicial de métrica e rima, ele foi aprendendo o artesanato da palavra — entendendo estruturas, cadências, rimas e modalidades — até
transformar intuição em linguagem. Nesse processo, a cantoria não é só entretenimento; é uma instituição cultural que ensina disciplina, escuta e respeito à tradição.
Se há um eixo emocional que sustenta a narrativa de Thiago, passa pelos avós e pela fé. Criado com presença intensa da família, ele associa sua formação de caráter ao modo “firme” de educar e à convivência com rituais simples, como rádio ligado em cantorias, conselhos cotidianos, oração como abrigo. A religião, no seu caso, não surge como adorno, é linguagem de mundo. Ao falar de devoção, de confiança e de esperança, ele expõe um traço muito característico da cultura sertaneja: a espiritualidade como força para atravessar perdas, secas, silêncios e recomeços.
Aprender
Thiago percebeu
que a poesia popular
funciona como rito de
passagem: você entra
como ouvinte
e sai com vontade de
responder ao mundo
em forma de verso
A poesia de Thiago alimenta-se do que ele chama de “derramamento”: experiências vividas, cenas ouvidas, lembranças que se impõem. Amor e saudade aparecem não como clichês, mas como matéria ética. Ele recusa-se ao “jogo do desinteresse”, assume intensidade e transforma contradições em texto. O resultado é um repertório que atravessa paixão, desengano, raiva e reconciliação consigo mesmo — sempre com a tentativa de preservar a classe do verso, mesmo quando a emoção é áspera. Essa postura revela um aspecto cultural importante, pois na poesia popular, o sentimento não é fraqueza, é combustível narrativo e espelho social.
O alcance digital virou ponte. Uma colaboração decisiva com um poeta consagrado impulsionou seguidores e, principalmente, confiança. A validação simbólica de alguém respeitado abre portas onde o mercado cultural costuma ser estreito. Ao mesmo tempo, ele percebe o paradoxo contemporâneo, no qual desconhecidos incentivam, enquanto parte do círculo próximo silencia. Ainda assim, Thiago insiste em divulgar, organizar repertório e sonhar
com projetos maiores — como reunir poemas, ordenar cadernos, preservar textos e, futuramente, publicar. Nesse ponto, sua fala toca uma ferida recorrente: a fragilidade do apoio institucional local a artistas e poetas. Mesmo em territórios onde a cantoria e a poesia são patrimônio, o investimento público muitas vezes é mínimo, quando não inexistente. A cultura resiste, mas poderia florescer com mais estrutura, agenda e valorização.
A trajetória de Thiago Laurentino evidencia que cultura não é peça de museu: é prática diária, memória em movimento e linguagem de pertencimento. Sua poesia nasce do Sertão, mas conversa com o presente — com internet, com novas audiências, com a necessidade de reconhecimento e com o desafio de continuar quando a empolgação passa. Entre a fé e a disciplina do verso, entre a saudade familiar e a sede de futuro, ele representa um tipo de artista que sustenta a cultura popular por dentro. Não apenas declama, mas preserva modos de sentir, narrar e existir. E, num tempo de pressa e superficialidade, isso é, por si só, um serviço cultural.
