Raízes, influências e construção artística
27 de fevereiro de 2026Raízes, influências e construção artística Por Francisco Anderson Mariano da Silva.
Texto extraído da coluna FUNES do Jornal A União publicado na data de 27/02/2026.
Longe do Sertão paraibano, mas não distante da cultura nordestina. Nascida e criada em Brasília, ela teve contato cedo com a música ainda na adolescência, por volta dos 13 anos. O primeiro impulso veio dentro de casa, num cenário comum a muitos artistas: cantar junto com as músicas que tocavam, testar a própria voz, imitar ídolos e descobrir, aos poucos, que aquilo não era apenas brincadeira. Foi o irmão quem percebeu a afinação e abriu a primeira porta concreta: havia um grupo precisando de cantora e ela foi chamada.
O início foi intenso. Poucos dias de ensaio e já estava no palco. Mesmo nervosa, sem saber como se portar, como falar com o público ou como controlar a ansiedade, ela viveu o que muitos músicos descrevem como o verdadeiro batismo artístico: o corpo treme, a memória falha, mas algo interior sustenta a permanência. A partir dali, a relação com a música deixou de ser experimento e passou a ser compromisso.
Ainda em Brasília, Alyne integrou banda baile, explorou repertórios variados e acumulou vivência de palco. Contudo, uma identidade consolidava-se silenciosamente: o forró. Mesmo vivendo em um contexto onde outros gêneros tinham maior circulação, seu vínculo afetivo sempre retornava ao estilo nordestino. Não era apenas preferência musical, mas encantamento com a estética, a energia do público, o impacto visual dos shows e a grandiosidade das bandasque admirava.
Esse encantamento tem raízes claras. Um vizinho paraibano costumava tocar Mastruz com Leite, Limão com Mel e Magníficos em volume alto, espalhando o som pela rua. Aquilo que parecia apenas trilha sonora cotidiana tornou-se memória afetiva e identidade sonora. O forró entrou pela convivência, pela repetição e pela emoção.
Entre todas as referências, Limão com Mel ocupa lugar central. Ainda jovem, ao assistir a um show da banda, Alyne vivenciou um marco simbólico. A estrutura, os músicos, os bailarinos, a iluminação e a emoção coletiva criaram um impacto transformador. Ali compreendeu que não queria apenas cantar; queria ser cantora. Esse momento de identificação é decisivo na formação artística: quando o palco deixa de ser distante e passa a ser horizonte possível.
Sua relação com essas referências não é superficial. Ao comentar sobre musicalidade, arranjos e estrutura de bandas como Limão com Mel, Alyne demonstra atenção técnica e consciência estética. Reconhece a complexidade dos arranjos, especialmente para instrumentistas, evidenciando uma artista que entende o forró como linguagem estruturada, com exigência técnica e tradição consolidada. Essa maturidade ajuda a explicar a permanência de mais de duas décadas na música.
A mudança para a Paraíba representou nova etapa. Em Patos, o desejo decantar transformou-se em projeto firme. Cerca de um mês após chegar, surgiu oportunidade em banda local. Apesar da hesitação inicial, aceitou o convite e iniciou inserção efetiva no cenário musical patoense.
A partir daí, consolidou-se numa trajetória de circulação entre bandas e projetos. Passou por Patricinhas do Forró, Feitiço de Menina, projetos familiares e uma longa parceria com Ítalo Lacerda, marcada por idas e vindas que somaram mais de 15 anos. Essa mobilidade reflete característica própria do circuito musical do interior: redes colaborativas, aprendizado contínuo e construção coletiva.
Em Patos, Alyne construiu reconhecimento, ampliou conexões e participou de eventos de grande visibilidade, incluindo apresentações no São João de Patos, dividindo espaço com artistas nacionais e vivenciando palcos de grande público. A cidade tornou-se território de consolidação artística e pertencimento cultural.

