Pagode e ecossistema (1)

20 de fevereiro de 2026 Off Por Funes Patos

Pagode e ecossistema (1) Por Francisco Anderson Mariano da Silva.

Texto extraído da coluna FUNES do Jornal A União publicado na data de 13/02/2026.

 

Ítallo Menezes carrega uma geografia afetiva que é, por si só, um retrato da cultura brasileira: nasce em Belém do Pará, cresce em Fortaleza e se estabelece em Patos, no Sertão paraibano. Esse deslocamento não é apenas mudança de endereço; é trânsito de sotaques, ritmos e maneiras de viver. Ao dizer que Patos o acolheu, ele descreve um gesto cultural típico do interior: a cidade reconhece quem chega com respeito, trabalho e presença. Com o tempo, o “recém-chegado” vira parte do cotidiano, cria laços, forma família e passa a representar a cidade em cada palco que pisa. A trajetória dele constrói-se nesse encontro entre origem, experiência e pertencimento, como acontece com tantos artistas que se tornam ponte entre lugares e pessoas.

Antes de ser reconhecido como cantor, Ítallo foi jogador de futebol. Viveu rotina de treinos, testes e passagens por clubes, e veio para Patos por uma ponte construída no esporte, com contatos, confiança e oportunidade para atuar na região. Ele conta que o futebol foi seu grande sonho e, por isso, a interrupção causada pela pandemia e por questões de saúde não foi simples. Ainda assim, o futebol não desapareceu; ficou como lembrança de disciplina, persistência e esforço diário. Culturalmente, essa virada do campo ao palco é significativa: o Brasil é um país onde o esporte e a música, além de paixão, viram caminhos reais de vida, exigindo preparo, resistência emocional e coragem para recomeçar. No caso de Ítallo, a mudança não apagou o passado; apenas reorganizou o futuro, como se a mesma vontade de vencer tivesse encontrado outra forma de existir.

A música, por sua vez, não surge como improviso de última hora. Ela já fazia parte do cotidiano familiar, pois o pai cantava seresta e gostava de barzinhos, o irmão tinha prática vocal e a casa era atravessada por canções e referências. Mesmo assim, Ítallo admite que tinha vergonha de cantar para o público. Esse detalhe é importante porque humaniza a figura do artista, já que muita gente imagina que o cantor nasce pronto, mas a realidade é que ele é construído. O teclado recebido de presente vira ferramenta de coragem — aprender dentro de casa, errar sem plateia, treinar, ouvir e tentar de novo. Quando decide se lançar, encontra o que quase todo artista encontra: críticas, comparações e comentários que tentam diminuir o sonho. Ele relata que houve quem dissesse que ele estava “imitando” alguém, como se inspiração fosse sinônimo de cópia. Em vez de recuar, ele escolhe amadurecer, cuidar da voz e construir presença. E o que faz essa caminhada virar cultura — e não apenas carreira individual — é o encontro com a rede de apoio, pessoas que abrem espaço no palco, convidam para cantar uma música, oferecem uma chance que muda a semana e, às vezes, a vida.

Em Patos, o pagode convive com a força histórica do forró e do sertanejo. Ítallo não trata isso como disputa, mas como ecossistema: estilos diferentes podem coexistir, e a cidade pode ampliar repertórios sem perder suas tradições. Ele mesmo é prova disso, porque transitou por sonoridades e projetos, até entender o que poderia entregar com qualidade e com as condições reais que tinha no momento. Quando fala do pagode, ele fala de energia e conexão: é um estilo que exige respiração, firmeza vocal e presença cênica, mas retribui com resposta imediata do público. Ele descreve a felicidade de chegar ao fim de semana e ver pessoas que pagam para assistir, consomem, cantam junto, voltam e chamam amigos, buscando uma vibe que as faça sair dali agradecidas. A cultura aparece justamente aí, no movimento das pessoas, na ocupação dos espaços, no bar que vira ponto de encontro e no repertório que passa a fazer parte das memórias da cidade. E quando Ítallo diz que fala com todo mundo — até com quem não conhece — ele reforça um traço essencial do pagode: não é só canção, é convivência, é comunidade construída na prática, com simplicidade e presença.

(continua na semana que vem)