Cabaceiras além do mito
2 de fevereiro de 2026Cabaceiras além do mito Por Sarah Cristinne Firmino.
Texto extraído da coluna FUNES do Jornal A União publicado na data de 19/12/2025.
Cabaceiras acaba de ser reconhecida como Capital Paraibana do Cinema. Não é coincidência. É prática cotidiana, economia e identidade. Cabaceiras é, há décadas, um dos territórios mais férteis do país para a criação audiovisual.
Quando uma reportagem internacional decide voltar os olhos para o Cariri paraibano, como ocorreu recentemente, o gesto naturalmente ilumina uma cidade que já vive e respira cinema há muito tempo. Mas a cidade não cabe apenas na moldura que o olhar de fora costuma enxergar.
A estética da paisagem árida, tão frequentemente usada para representar o Sertão, pode ser atraente para cineastas e fotógrafos, mas ela não se sustenta apenas nessa imagem de “faroeste” ou “uma cidade empoeirada no árido Nordeste” como começa a matéria “Brazil’s answer to Hollywood: a sleepy town of dreams and droughts” do The New York Times.
Cabaceiras possui um ecossistema audiovisual sólido: museus e espaços dedicados a figurinos e cenários deixados por grandes produções; restauração de locações históricas; hospedagens e empreendimentos nascidos diretamente do fluxo de equipes; apoio logístico da prefeitura e da secretaria de Cultura e Turismo; produtores locais que organizam testes, e workshops. Mas nada disso aparece no The New York Times!
Dentro desse ecossistema, o Instituto Cimm (Cinema no Meio do Mundo), ocupou recentemente um papel fundamental. Cabaceiras tornou-se palco de seu novo filme, Asas, dirigido pelo cineasta premiado nacionalmente, Tiago A. Neves.
O curta-metragem foi gravado na cidade no último mês de novembro e reúne atores paraibanos como protagonistas, assim como tornou-se fonte de novos talentos, surgido diretamente de testes realizados na cidade.
Uma das principais forças de organização técnica do Cimm é Nivaldo Rodrigues, escritor, professor e produtor cultural e audiovisual. São profissionais como ele que transformam o território em lugar de criação.
Produções como O Auto da Compadecida marcaram a cidade de forma definitiva e seguem atraindo visitantes até hoje, interessados em caminhar por ruas que já foram cenário de uma das obras mais emblemáticas da cultura nordestina.
Mas Cabaceiras não parou no tempo. Ao contrário: a cidade atualiza-se constantemente e mantém-se em atividade, recebendo novas produções, formando profissionais e funcionando como um grande set de filmagem a céu aberto.
Para além do letreiro turístico e do imaginário já consolidado, existe algo menos visível e mais poderoso: quando uma
produção chega, a cidade para, e para por escolha. Ruas são respeitadas, rotinas se reorganizam, moradores colaboram espontaneamente.
Há um sentimento coletivo de honra e pertencimento, como se cada filme fosse também um pouco deles. Cada pessoa ajuda como pode: cedendo espaços, casas, figurinos, cozinhando, costurando, orientando equipes, oferecendo serviços… É um pacto silencioso que gera renda extra, circulação econômica e continuidade.
Um desses exemplos de adaptação é Amilton de Farias Cunha. Ele é ator formado nas oficinas locais, guia turístico e responsável pelo Restaurante e Hospedaria Saca de Lã. Em suas redes sociais, apresenta-se como “matuto, sim; besta, não”. Uma frase que diz muito sobre como tem sido historicamente tratado: ora como adereço folclórico, ora como caricatura. Amilton não é apenas um “rancheiro barbudo” como cita a matéria do The New York Times, além de empreendedor, ele já fez parte de grandes produções, como Maria e o Cangaço, da Disney+, e tantas outras participações artísticas.
Cabaceiras expõe algo essencial sobre o audiovisual brasileiro: o país não precisa ser comparado a modelos estrangeiros para justificar o seu valor. O nosso Brasil com S é autoral, inventivo, múltiplo e profundamente marcado por sua diversidade cultural.
O cinema que nasce no Cariri não busca replicar Hollywood, responder a nada, nem servir como “versão exótica” de um padrão globalizado. Ele existe porque seus moradores constroem suas próprias formas de contar histórias, e merece ser lido não como curiosidade tropical, mas como referência!

