Mariah Sanfoneira: a força de uma voz e instrumentista feminina de Patos
2 de fevereiro de 2026Mariah Sanfoneira: a força de uma voz e instrumentista feminina de Patos Por Francisco Anderson Mariano da Silva.
Texto extraído da coluna FUNES do Jornal A União publicado na data de 26/12/2025.
Filha de agricultores, criada entre o roçado, a escola pública e o som da sanfona que vinha do pai e dos tios, Mariah cresceu em uma família simples de São José de Piranhas. Desde cedo, carregava um talento que precisou defender. Começou na música segurando um triângulo aos oito anos, passou por outros instrumentos e, com o tempo, descobriu que a sanfona era o caminho certo para ela. Canhota, sonhava tocar violão, mas encontrou limitações e dificuldades. Foi o pai quem sugeriu: “Tenta na sanfona”. No dia em que colocou o instrumento no peito pela primeira vez, entendeu que aquele seria seu lugar. Aos 14 anos, iniciou a trajetória que nunca mais abandonou.
Essa história foi compartilhada na entrevista concedida ao podcast Pode Conversar, gravada há mais de um ano. Durante a conversa, Mariah relembra situações marcantes, como as humilhações que viveu por não ter instrumento próprio. Dependia da sanfona do pai ou de empréstimos. Ouviu de pessoas que “seu pai tem sanfona, pegue a dele”, e chegou a ter sua capacidade questionada. Em meio a isso, veio a ajuda fundamental da mãe, que fez um empréstimo para que a filha tivesse a própria sanfona. Para uma família de agricultores, com renda limitada, esse gesto significou muito mais que a compra de um instrumento.
A partir daí, Mariah passou por grupos locais, pela orquestra sanfônica, por bandas de forró e iniciou sua carreira solo,
que se mantém viva, apesar das dificuldades. Na entrevista, ela fala sobre tocar horas seguidas e receber cachês baixos, sair de festas sem pagamento, ouvir que “o movimento foi fraco” e até precisar pagar por água em alguns locais onde se apresentou. Mesmo assim, segue estudando, montando repertórios, assinando contratos, correndo atrás de eventos, pagando plataformas de VS e cuidando de toda a organização dos seus shows. Esses relatos chamam atenção para um problema comum na vida de muitos músicos: a falta de valorização e o tratamento desrespeitoso por parte de alguns contratantes. Mariah lembra que, antes do palco, existe estudo, tempo, preparação, custos e dedicação. Nada ali acontece por acaso.
Além das dificuldades financeiras e estruturais, existe outra barreira que ela enfrenta até hoje: o preconceito de gênero. Ainda escuta que sanfona “não é instrumento de mulher”, que bateria “é coisa de homem”, ou que sua presença no palco “incomoda”. Ela responde com tranquilidade, afirmando que apenas usa o dom que recebeu e que mulheres também têm espaço na música. Cita como referências instrumentistas como Vera Figueiredo e Lucy Alves, mostrando que esse caminho não é novo, mas ainda precisa ser reconhecido.
Durante a entrevista, Mariah também comenta sobre o ambiente competitivo e, às vezes, desleal do meio musical. Diz que já teve ideias copiadas e precisou continuar trabalhando ao lado de pessoas que a prejudicaram. Mesmo assim, insiste em seguir com humildade, ética e responsabilidade. Reforça que o músico tem contas a pagar, mas também precisa trabalhar com sinceridade e respeito ao público.
Um dos momentos mais fortes da entrevista é quando ela conta sobre tocar mesmo estando triste. Já passou por situações pessoais difíceis, mas decidiu subir ao palco e entregar alegria. Depois do show, recebeu o abraço de alguém que disse ter tido sua noite transformada pela música. Para Mariah, aquele momento mostrou que seu trabalho também tem impacto emocional direto na vida das pessoas, algo que a motiva ainda mais.
Além de musicista, Mariah é compositora. Escreve sobre amor, cotidiano e experiências pessoais. Algumas músicas suas já circularam em vozes de artistas maiores, mas nem sempre com crédito. Isso reforça a importância dos direitos autorais. Hoje, ela se organiza melhor, registra suas obras e orienta outros músicos a fazerem o mesmo.
Apesar de tudo, o que mais aparece na fala de Mariah é a palavra “oportunidade”. Ela comenta sobre pessoas em situações difíceis, gente que não teve apoio ou chances reais de crescer. Fala que, caso conquiste mais espaço, quer abrir portas para outras pessoas também. Sonha em organizar ações sociais, arrecadações e projetos que ajudem quem precisa.
É nesse ponto que sua história se conecta com a proposta da coluna Funes Cultural, que busca valorizar a cultura local
e dar voz às histórias do povo. A trajetória de Mariah representa a força da música feita no interior, o esforço de artistas que trabalham duro e o desejo de manter viva a cultura da Paraíba. Sua música é ouvida em forrós, bares, palcos improvisados e festas de interior, e carrega uma mensagem sobre dignidade, respeito às mulheres musicistas e valorização da cultura popular.
A entrevista (disponível em www.youtube.com/watch?v=sn47xr3BeGM) é a fonte de todas as falas presentes neste artigo e revela o quanto Mariah merece ser ouvida, reconhecida e lembrada como parte importante da produção musical do Sertão. Que este texto ajude a ampliar sua voz e a abrir novos caminhos, mostrando que a cultura local é feita também por histórias como a dela — verdadeiras, construídas com esforço e cheias de vontade de vencer.

