“Derrepente” se perdeu
2 de fevereiro de 2026“Derrepente” se perdeu Por Gustavo Morais Pereira.
Texto extraído da coluna FUNES do Jornal A União publicado na data de 09/01/2026.
No mercado municipal de Patos, na Paraíba, ocorreu em 1872 a chamada “Peleja histórica de Inácio da Catingueira e Româno Caluête”. A peleja é uma batalha de rimas improvisadas, típica do Sertão nordestino; muitos apologistas se referem à peleja histórica como uma das maiores disputas de repentistas da história, tendo durado oito dias seguidos e destacando o fato de Inácio ser um negro escravizado e Româno um branco escravagista.
Recheada de tiradas e ironia, a peleja histórica se constitui de versos e rimas onde Româno Caluête, ou Româno de Mãe D’Água, reafirmava seu papel de senhor de terras e de escravizados, e Inácio, sempre muito rápido e com exímia esperteza, ironizando Româno e o pondo muitas vezes na defensiva por subestimar o poeta da Catingueira, sítio que, até sua emancipação, pertencia ao território patoense.
Se a disputa realmente durou os oito dias e oito noites é até questionável, mas algo indiscutível é a sua condição de peleja lendária, épica ou histórica, o que elevou o poema de repente e as pelejas até um outro patamar. Tanto Româno Caluête quanto Inácio da Catingueira se eternizaram como lendas do poema de repente durante esse episódio da história sertaneja.
Apesar da conhecida dificuldade em verificar a veracidade factual a partir de registros feitos quase um século após o ocorrido, é inegável o impacto e influência da então peleja histórica no imaginário nordestino, de forma que diversos autores, como Rodrigues de Carvalho, Guerreiro Ramos, Fernando Couto, dentre muitos outros, fizeram seus registros, sendo registrada também em cordéis.
Uma das problemáticas a respeito desse apagamento sobre o qual podemos refletir é, principalmente, a maioria dos registros dessa disputa entre os poetas ter sido feita em formato de cordel. Por mais que tenha se consolidado enquanto patrimônio cultural recentemente, ainda é uma cultura majoritariamente oralizada e categorizada como cultura “popular”, o que estabelece uma rígida dicotomia que distingue o que é “erudito” e o que não é.
Não podemos desconsiderar, todavia, os esforços que são feitos por mediadores e produtores culturais que organizam e planejam eventos, arranjos culturais, saraus para dar visibilidade à temática. É necessário pensar estratégias e táticas culturais para que se possa impulsionar pesquisas, debates e reflexões a respeito da cultura local e sua riqueza imensurável.
Exemplos são o evento que ocorreu em homenagem a Inácio da Catingueira, em 2022, na cidade de Catingueira, que contou com homenagens, apresentações culturais e lançamento de livro sobre o poeta negro do Sertão paraibano, e o Festival de Poetas Repentistas, que acontece em Patos.
Mesmo assim, pouco ou nenhumvmaterial se tem na cidade de Patosvem fácil acesso sobre a então peleja evmuito menos sobre Inácio da Catingueira, mesmo sendo o repente considerado uma arte popular de grande tradição da região. Devemos refletir sobre sua influência na região da cidade e problematizar o processo de apagamento histórico da figura de Inácio na cidade de Patos.
Inácio era um poeta escravizado que recebeu imenso destaque e reconhecimento devido sua peleja com Româno Caluête, mas que, enquanto figura marcada por uma racialidade, passou por um processo de apagamento que começa desde o seu nome, que recebe por ser do sítio da Catingueira, já que, enquanto homem negro escrevizado, não recebera sobrenome.
Assim como há de ser feito o improviso no poema de repente, de repente Inácio da Catingueira se perdeu na história da cidade.

