Entre cultura, memória urbana e esquecimento
2 de fevereiro de 2026Entre cultura, memória urbana e esquecimento Por Sarah Cristinne.
Texto extraído da coluna FUNES do Jornal A União publicado na data de 30/01/2026.
O Açude Velho nasceu antes da cidade que hoje o cerca. Inaugurado em 1830, como resposta direta a um ciclo severo de secas, foi uma solução concreta para a sobrevivência de Campina Grande. Não era paisagem, era infraestrutura vital e base do crescimento urbano. Com o tempo, tornou- -se espaço social. Suas margens viraram lugar de encontros, caminhadas, conversas, ponto turístico. Vieram os monumentos, a urbanização, a iluminação, o calçadão.
O açude passou a ocupar o centro simbólico da cidade, cenário recorrente das fotografias, dos vídeos promocionais e das imagens de drone que vendem Campina como cidade moderna, viva e integrada à sua história.
Enquanto o açude consolidava-se como cartão-postal, suas águas transformavam-se em um depósito silencioso de sedimentos, esgoto, lixo e descuido, diluídos no cotidiano.
Paralelamente, durante muito tempo, Campina ouviu histórias sobre um jacaré que ali habitava. Não era um medo individual, era quase um acordo coletivo: “Ele existe, é melhor ter cuidado”. A lenda atravessava gerações, misturava verdade e imaginação e ajudava a dar contorno simbólico ao lugar. Até que, em determinado momento, o jacaré deixou de ser apenas história. Foi visto, fotografado, avistado na superfície e fora do açude. Hoje, sabe-se que não se tratava apenas de lenda. Nos anos 1980, três exemplares de jacaré-do-papo-amarelo foram introduzidos no Açude Velho. Sempre que surgiam fora d’água, os animais eram resgatados pelo Corpo de Bombeiros e devolvidos a ambientes adequados, sem registros de ataque. A partir daí, o jacaré entrou definitivamente no imaginário cultural de Campina Grande e passou a ser incorporado de diferentes formas.
Essa apropriação ganha forma festiva a partir da iniciativa de Cândido Freire que, ao avistar o animal no dia do seu aniversário, criou o Bloco do Jacaré do Açude Velho, transformando a chamada lenda urbana em manifestação cultural. O bloco desfilou pela primeira vez em 2009, na terça-feira de Carnaval, ao redor do açude. A curiosidade deu lugar à celebração.
Em 2012, o açude foi atravessado, literalmente, por uma instalação artística que construiu uma ponte flutuante feita com cerca de oito mil garrafas pet, permitindo que as pessoas caminhassem sobre suas águas de uma margem à outra. Não era um gesto contemplativo. Era uma experiência sensorial e política. Quem atravessava sentia o cheiro, percebia a cor da água, tocava a lama. O corpo era convocado a experimentar aquilo que a cidade havia aprendido a ignorar. A ação teve prazo curto, conforme recomendação do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia, em razão do tempo de utilização das garrafas pet e para evitar riscos de afundamento da estrutura. O projeto contou com a participação ativa de Nivaldo Rodrigues Filho, em parceria com o artista plástico Jarrier Alves. Durante a travessia, o público era convidado a colaborar com um abaixo-assinado que pedia a recuperação ambiental do açude, então já em estado crítico de poluição. Ainda assim, nada mudou.
A travessia dialogava com um episódio emblemático da história local. Em 1978, o empresário Roldão Mangueira, por motivos religiosos, afirmava que o mundo iria acabar e prometia atravessar o Açude Velho andando sobre as águas. Não atravessou. Foi impedido pelo Corpo de Bombeiros. Hoje, dificilmente alguém cogitaria fazê-lo, não por falta de fé e coragem, mas pelo receio diante do que a água revela.
Em 2015, o jacaré ganha sua elaboração cultural mais complexa. O teatrólogo Saulo Queiroz escreveu Jack, o Jacaré do Açude Velho, transformando a lenda em narrativa cênica para crianças, sem jamais tratá-las como ingênuas. Na peça, Jack é personagem pop, mistura de Michael Jackson e Jackson do Pandeiro, acompanhado por figuras como as Piabas Paraibanas, um trio de forró subaquático. Há humor, música e fantasia. Há também denúncia.
A água poluída, os animais sobrevivendo no limite, o lixo cotidiano, a ameaça de aterro, a sereia que encanta humanos para sujar o açude, tudo já estava ali, dramatizado.
Em 2023, essa narrativa reaparece no campo literário com o lançamento do livro infantil O Jacaré do Açude Velho, de Ida Steinmüller, do Instituto Histórico de Campina Grande (IHCG), reafirmando o animal como símbolo afetivo e cultural da cidade. O jacaré já não estava apenas na água, no teatro ou no carnaval. Tornou-se mascote de equipe esportiva, personagem recorrente em ilustrações, objetos e narrativas cotidianas. Enquanto isso, o açude dava sinais: peixes mortos surgiam em suas águas, levantavam hipóteses de contaminação, indicavam presença de substâncias tóxicas e motivaram investigações pontuais.
Hoje, já não se trata de alegoria, mas de 10 toneladas de peixes mortos retirados, água marrom e um odor quase insuportável que se espalha por ruas inteiras. Soma-se a isso uma investigação por crime ambiental cujo desfecho ainda é incerto. Ao longo de todo esse percurso, o jacaré jamais foi o perigo, mas a indiferença, sim.
