Histórias do trancoso

3 de junho de 2024 Off Por Funes Patos

Histórias do trancoso Por Sebastião Gomes Araújo de Sousa.

Texto extraído da coluna Funes do Jornal a União publicado na data de 31/05/2024. 

 

No Sertão, quando havia bom inverno, a fartura de milho e feijão era grande. Quando chegava o mês de junho, as salas das casas já não tinham espaço. Nos roçados parte dessa produção se estragava. Era comum a vizinhança se reunir até tarde para debulhar feijão. Era muita gente; não tinha cadeira para todos; assim sendo, sempre improvisavam um lugar para sentar, às vezes se acomodavam até no chão. O bom mesmo era a alegria do povo. Enquanto muitos debulhavam feijão, aproveitavam para contar suas lorotas duvidosas. Não faltavam histórias de caçador nem poesias de cordel e até disse me disse. Sempre aparecia um tocador de violão, ou, mesmo sem instrumento, muita gente cantava, ria e até paquerava e dava namoro. Era uma festa naquele mês de junho, quando, em toda casa, tinha um paiol de feijão para debulhar.

Muitos aproveitavam para dizerem já ter visto visagem (vulto em forma de pessoa ou animal) ou mal-assombrado (vozes, gemidos, choro e até utensílios de alumínio caindo e fazendo barulho, dentro ou aos arredores das casas abandonadas). Na frente daquelas casas velhas, muitos diziam terem visto vultos ou pessoas pedindo rezas. Alguns completavam ironicamente e diziam ter visto uma caveira oferecendo dinheiro. Outros iam interpretar sonhos e até fazer adivinhações e ensinar truque para as moças encalhadas conquistarem seus pretendentes. Era comum aparecer naquele ambiente pessoas até da família se dizendo cartomante. Quando alguém se interessava, elas levavam para um canto discreto e tomavam a grana. Era muita gente inocente caindo nesses falsos contos, tudo isso nas debulhas de feijão.

Muitas dessas histórias e visões eram comuns a quem passava durante a noite em frente às antigas casas grandes onde já residiam os antigos coronéis e latifundiários ricos. Nessas conversas do trancoso, falavam também do que
viam nas velhas estradas onde existiam muitas cruzes de pessoas que ali faleceram de morte natural ou assassinadas. As histórias eram diversas, muitos diziam terem visto até mula sem cabeça.

Todas essas conversas não tinham fundamento, eram para tirar atenção dos debulhadores de feijão para que eles não cochilassem. Por outro lado, algumas dessas histórias até convenciam e deixavam dúvidas, e eram interpretadas como se alguém que já tivesse morrido quisesse se comunicar e oferecer ouro enterrado que se conhece como “botija”. Botija é uma vasilha de barro ou metal de uso doméstico, que, naquele tempo, quando não havia cofre, usava-se para guardar ouro e prata.

Esses utensílios eram muito visados pelos cangaceiros, ladrões e criminosos. Assim sendo, esses donos de ouro costumavam enterrar em lugares discretos da casa ou aos arredores e geralmente não diziam para os familiares, com receio de serem abordados pelos criminosos e obrigados a mostrarem essas botijas, muitas vezes essas pessoas
morriam de repente e não dava tempo dizer para os familiares onde estavam enterradas as joias.

Assim sendo, segundo o que relatavam, depois da morte essas pessoas já falecidas apareciam a alguém, nem
sempre da família, e pediam para arrancar do chão aquele ouro deixado. Assim muitos diziam. Fica a critério do leitor acreditar ou não.

Uma coisa é verdade: medo de alma quase todo mundo tem e de assombração nem se fala. Muita gente que se diz corajosa e não acredita em alma nem mal-assombrado também não é capaz de dormir em uma casa velha, sem uso,
onde os donos já morreram.

“Era comum a vizinhança se reunir
até tarde para debulhar feijão”