Dificuldades de ser um ‘headbanger’ no Sertão

Dificuldades de ser um ‘headbanger’ no Sertão

21 de janeiro de 2023 Off Por João Antunes

Dificuldades de ser um ‘headbanger’ no Sertão por João Batista Antunes da Nóbrega Filho .

Texto extraído da coluna Funes do Jornal a União publicado na data de 20/01/2023.

É consenso que estamos passando por um momento delicado na cultura deste país. Mas antes que comecem os argumentos do tipo: “Ah, então o que você está fazendo aqui, vai embora para outro país”. Mas tudo bem, nem tudo está perdido, visto que ainda temos um pouco de fôlego para nos tornarmos a resistência cultural. Mas é difícil ser fã de rock ou heavy metal no país do Carnaval e muito mais difícil na terra do forró industrializado para as massas, não é algo tão martirizado assim. Quem sofre, de verdade, é quem mora em pequenos centros urbanos.

Duo Caverna oriundo da cidade de Patos no sertão paraibano

Duo Caverna oriundo da cidade de Patos no sertão paraibano

Vivemos em uma sociedade culturalmente falida, hoje vivenciamos a pobreza e a falta de criatividade que assola o cenário musical tupiniquim. Infelizmente, temos que conviver tudo o que aparece e é divulgado massivamente pelos meios de comunicação, nos obrigando a aceitar o gosto da “maioria”. Como o país mundialmente reconhecido pelo samba e MPB consegue chegar a tal ponto de declínio cultural no cenário musical? Longe de querer gerar debates acalorados entre fãs de outros gêneros musicais, e sim focar o preconceito que uma pessoa que simplesmente gosta de rock ou metal passa na sociedade.

Nos centros urbanos maiores, há um grande equilíbrio em tais situações, pois há uma diversidade em gostos musicais, mas e quem vive no interior? Infelizmente, em uma cidade do interior, o simples fato de ser fã de rock ou heavy metal do seu estilo de se vestir ou qualquer outra forma que possa lhe caracterizar como um indivíduo que não segue o padrão cultural local, te faz sentir um excluído das atividades culturais locais. Claro que, apesar da exclusão e ser muitas vezes confundido ou apontado como um maluco ou um fora de moda, nossa consciência cultural falará mais alto e dirá que nem tudo está perdido, mesmo se você morar em um “fim de mundo”, onde a grande maioria das pessoas ainda pensa que rock é coisa de “amantes do capeta” e música que influenciam negativamente o comportamento dos seus fãs e admiradores.

Se analisarmos bem, poderemos perceber a falta de cultura dessas pessoas, transformando esse tipo de gente em sujeitos estúpidos e preconceituosos. A maioria dessas pessoas associa suas vidas com o que há de pior na cultura deste país, a cultura da “sexualização musical”. Sem mais, esse é o fator cultural principal de um povo que prefere a degradação da imagem social ao invés de realmente gostarem de um gênero musical em que há ênfase em harmonia e sintonia com o mundo de maneira geral. Nisso tudo, nós geralmente somos vistos como pessoas diferentes, de péssimo convívio social, e vítimas de discriminação social.

Em grande parte, nos casos, esse preconceito acaba causando uma divisão entre as pessoas que não aceitam a sua preferência musical, isso é natural? Mas por que não se é aceito? Por ignorância pura e simples! Isso é um fato. Veremos alguns exemplos de minhas experiências de vida, através do convívio com os tipos de pessoas que mais tem por aqui sertanejos, forrozeiros e funkeiros. Sempre fui questionado: pelo porquê de gostar de rock ou heavy metal, recebendo as mais variadas perguntas. Perguntas tão ignorantes que nos fazem pensar, “será que eu estou lidando com uma pessoa?”

Exemplos dos mais variados tipos: “Você só escuta rock pauleira?”, “Rock é coisa do demônio!”, “Afi, não me entra na cabeça gente que gosta de rock pesado!”, “Por que essas bandas só cantam em inglês?”, ”Você nem entende o que eles falam, devem estar xingando sua mãe e você nem sabe!”, “Vichi, você gosta desse barulho?”, “Ah, você curte aquelas músicas em que os caras só ficam gritando!”. Essas são algumas das perguntinhas mais clássicas e corriqueiras que estou acostumado a ouvir no meu cotidiano. Mas quando tentamos dar uma resposta concreta com argumentos bem fundamentados para qualquer uma dessas perguntas de forma respeitosa, essas pessoas ainda ficam sem entender.

A realidade é esta: pessoas de nível cultural baixo são muito mais vulneráveis a este tipo de conduta. Por mais que se tente responder qualquer uma dessas perguntas, elas ainda ficarão sem entender e ainda assim você que se passará por maluco ou “adorador do capeta”.

É de difícil compreensão como que alguém tem as condições de perguntar se você entende o que umvocalista está cantando, só porque a letra está em inglês ou em qualquer outra língua. O Brasil é o único país do mundo? As pessoas me criticam se eu entendo ou não o que Pink Floyd ou Amon Amarthes está cantando nas letras, mas eu sou obrigado a saber o que significa ‘Arrocha’, ‘Tchu, Tcha’, ‘Lepo, Lepo’, ‘Sertanejo universitário’ dentre outras expressões populares no atual cenário musical tupiniquim.