Lenda de Maria Florzinha (2)

4 de dezembro de 2023 Off Por João Antunes

Lenda de Maria Florzinha (2) por Alexsandra Lacerda de C. Trigueiro.

Texto extraído da coluna Funes do Jornal a União publicado na data de 01/12/2023.

Na primeira parte do texto, publicado na semana passada, vimos que Comadre Florzinha é uma lenda brasileira, uma das mais famosas do Nordeste, sobretudo, da Paraíba e Pernambuco. Uma criatura do folclore brasileiro, muito famosa, mas não muito divulgada pelo público, pelas escolas ou instituições culturais. Bemdiferente da Cuca, do Saci Pererê, da Mula Sem Cabeça, do Curupira, do Lobisomem, do Papa-Figo.

Potiguar Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), autor de ‘Folclore do Brasil’

Potiguar Luís da Câmara Cascudo (1898-1986), autor de ‘Folclore do Brasil’

Maria Florzinha era considerada a Dona da Mata, uma jovem com cabelos muito longos que vivia de árvore em árvore para assombrar as crianças e quando estava brava, batia nas crianças com o cabelo. Cabelos longos e fortes que ela usava para dar chicotadas. Essa lenda traz um dos principais personagens da cultura popular da minha infância, do meu bairro e sua imagem não se restringia aos relatos dos folcloristas brasileiros, a exemplo de Câmara Cascudo, no seu livro Geografia dos mitos brasileiros.

Maria Florzinha aparece também como entidade divina, um ser místico de caráter ambíguo podendo atuar para o bem ou para o mal. Atacando caçadores, chicoteando com seus longos cabelos pessoas e animais, principalmente aos que passam sem deixar oferenda.

A menina se perdeu e morreu na mata. Seu espírito ficou vagando e por ser uma criança gosta de fazer traquinagem como tranças nos rabos dos cavalos.

Apresento uma particularidade local, advinda das experiências infantis vivenciadas por um grupo de crianças da minha família e da minha rua. Nessas vivências, Maria Florzinha não é um ser místico apenas habitante das florestas, ela é uma personagem também urbana que saía da floresta e ficava nas proximidades das residências, habitando nas árvores. Aqui Maria Florzinha aparece como criança travessa, que come frutas, mel e adora doce e brinquedos, mas, por outro lado, quando está zangada, lança chicotada com seus longos cabelos.

O cheiro de flor é uma característica forte dessa personagem e é anunciador da sua presença. Quem quiser agradar a Maria Florzinha deverá deixar um pouco de mingau, frutas ou fumo perto de uma árvore, essa ação a deixará calma.

Quando sentir um cheiro de flor onde não tem flor, tome cuidado, Maria Florzinha pode estar por perto.

Para a referência desta coluna: Folclore do Brasil (Rio de Janeiro: Editora Fundo de Cultura, 1967), de Luís da Câmara Cascudo, e A história cultural: entre práticas e representações (Rio de Janeiro: Difel, 1990, tradução de Maria Manuela Galhardo), de Roger Chartier.