Misael Nóbrega de Sousa

6 de fevereiro de 2024 Off Por João Antunes

Texto extraído da coluna Funes do Jornal a União publicado na data de 02/02/2024.

A coluna Funes Cultural vem homenageando escritores patoenses com publicações de textos e biografias. Em janeiro, todas as colunas publicadas foram do saudoso Virgílio Trindade. Agora, em fevereiro, o homenageado é o escritor Misael Nóbrega de Sousa, autor de diversas obras, entre elas: O Fantoche (poesia), Espelho (poesia), Cinza das Horas (poesia), A Pedra do Imã (conto), Folhas do Álamo (reflexões), Colcha de Retalhos (crônicas) e A Rua Grande de Meus Pais (crônicas). Confira abaixo dois textos escritos pelo homenageado deste mês.

A velhice

A velhice é a mais serena das idades… É quando o desprendimento passa a ser a derradeira prova de maturidade. E não conservar os prazeres de antigamente é o mesmo que dizer que eles nunca foram importantes. Na velhice, reaprendemos a viver como um fiel depositário do tempo e encaramos a morte com honradez. Tudo tem fim. Envelhecer é uma graça de Deus.

As rugas significam que o medo foi desafiador, porém, vencido. Só lamento essa degeneração moral imposta pela sociedade. Já não nos bastam o peso dos anos e o “chocalho fatídico dos ossos”? Mais respeito! Ser velho não é ter pele escamosa, flácida, pútrida… É ser um patrimônio de si mesmo. Este mundo é que é doente. – Viva! Simples assim. Embora a vida seja o calvário dela mesma. Mas, quem sabe não é isso o que nos move… Estou delirando. E lembro que Erasmo de Roterdan disse que a loucura é o único bem supremo. Não rasgaria o minuto para expor a minha dor, pois as verdades só serão apartadas na hora da hora… – É quando a alma vagará à procura do lugar onde os velhos serão também meninos e o tempo uma volta de carrossel.

Funcionário público

A gaveta foi fechada, solenemente, como se o ato cerrasse também uma vida. Aliás, pode-se dizer que essa metáfora não sugere nenhum exagero. O relógio, dependurado acima da escrivaninha, numa parede pintada de ontem, sugeriu à porta de saída. As badaladas soaram como se mitigassem as horas. Apenas os ponteiros meio tortos, desalinhados, deixavam dúvidas quanto à sua exatidão. Pura afronta.

A velha máquina de escrever ainda ficaria por lá, meio que aposentada. Não diria desprezada. Havia muito de importância naquelas fitas gastas em intermináveis ofícios, encaminhados aos mais aristocráticos destinatários. Se com os idos tudo vira obsoleto, o que dizer de mim? Um funcionário público de carreira que não aprendera a fazer outra coisa. A força da prematuridade havia dado lugar a uma flacidez quase decrépita – uma visão atrofiada, feito insígnia do tempo perdido.

Agora batia continência para o velho no espelho da sala, cujo reflexo era dele mesmo. Um ato contínuo de dever cumprido. Não chego a questionar se valeu a pena… – dei a volta pela mesa arrumada para a retirada – os apetrechos, estrategicamente, alinhados como que se despedindo. Fiz de propósito, confesso – pelo menos, aqueles seres inanimados não sentiriam compaixão.

Nada mais havia por fazer. Caminhei em direção à luz que vinha da rua. De passagem, peguei o casaco que repousava no cabideiro. E sem me esquecer de carregar da estante um Cervantes – fiel escudeiro de tardes mornas –, iniciei a descida. A porta trancou-se atrás de mim. Após cada degrau vencido, recuperava o fôlego. As imagens me seguiam em reverência. Tudo me doía. A demora era justificada, pois não conseguia demover a ideia de não olhar para trás… E só investir no próximo passo quando tive a certeza de que outro homem era quem saía.