A poesia de Tarcísio Meira César

A poesia de Tarcísio Meira César

24 de março de 2022 Off Por funes

A poesia de Tarcísio Meira César por José Ozildo dos Santos.

 

Texto extraído da coluna Funes do Jornal a União publicado na data de 25/02/2022.

 

Ao longo de sua curta existência, Tarcísio Meira César desenvolveu “uma rara experiência de artesanato literário”, mantendo-se “fiel ao seu tempo no tumulto de todas as inquietações, sofreguidão ou angústias de nossa época e, igualmente, ter condições interiores para os grandes reconhecimentos da aventura intelectual”. Considerado em sua época “um caso admiravelmente raro no Brasil”, conhecia como poucos, um grande número de clássicos, revelando-se “um apaixonado pelo saber”.

A poesia residia em suas veias e como poeta, Tarcísio Meira César foi “o que se pode chamar um começo de conciliação entre tradicionais valores incisivamente únicos da poesia brasileira e as novas formas humanas de expressão correspondente às mudanças que se têm operando no país”. Culto, possuidor de uma sensibilidade afetiva bastante acentuada, encontramos, pois, em sua poesia, fragmentos da mais pura e autêntica cultura nacional. Disciplinada, equilibrada e até certo ponto mágica, nela, o autor insere algo de seu “eu moderno”, numa experiência que combina o lírico com o social.

 No poema Os Poetas Ben(ditos), Tarcísio Meira César critica as correntes literárias do passado por criarem uma “simbologia desnecessária de um mundo agônico”. E, de forma ousada, convoca os poetas de sua época para que “carreguem seus sonetos / estrofes” e passem a viver longe das ilusões, seguindo seu exemplo; pois, ele próprio, já havia deixado “de ser um / poeta granfino / de fraque / e cartola / como se vê em fotografias / da bella époque”.

Se apenas houvesse escrito esse poema, Tarcísio Meira César seria para todos os fins, um poeta consagrado. Para ele, o verdadeiro poeta de vanguarda “encomenda” seus próprios versos, “de acordo com a sua pessoa, estilo / e concepção do mundo e da / arte (…)”. E, num tom de alerta, afirmava que “o mundo anda com os pulmões pobres”, alimentados pelos vícios do progresso e danificados pelas guerras continuas, frutos da ignorância humana.

 Como pessoa humana, Tarcísio definia-se como um ser “frágil, mas, apenas, na medida / da fragilidade atuante / que luta por escapar / de um vórtice voraz / que tudo engole e mal digere”. Em suas preces intimas, dizia: “Senhor, / uma nota qualquer à minha fé / é tudo o que preciso e quanto peço”. Em raríssimos poetas paraibanos da atualidade, encontramos a eloquência – qualidade viva em Tarcísio Meira César – que com desprendimento e naturalidade “construía” seus versos. Sem alimentar o cansaço, ele passou pela vida de forma meteórica, deixando flores, sementes de seu talento, pelos caminhos que trilhou.

 Poeta autêntico, não era preso a nenhuma escola literária e através de sua poesia, procurava sempre “retornar às puras e verdadeiras fontes do canto”. Ao publicar Poemas Grotescos, declarou: “meu único intuito ao divulgar estas composições, que denominei Poemas Grotescos, foi satisfazer as fantasias que durante toda a vida alimentei com relação à poesia, a qual, para mim à semelhança de Poe, não tem sido uma finalidade, mas uma verdadeira paixão”.

Tarcísio estreou como poeta e jornalista no Recife. E, por isso, é citado por alguns críticos e organismos da imprensa nacional como sendo pernambucano. Mas, mesmo distante do solo natal, ele carregava consigo a “paisagem” árida do Sertão das Espinharas, assim, descrevendo-o: “Vegetação alguma havia lá. / Nem vento que agitasse o nada em torno. / Só um hálito antigo e muito morno / tangia a alma do tempo sem cessar”. Em vida, foi ele um poeta que através do amor e de sua poesia pura, buscava a liberdade do viver e em sua própria observação, foi “um produto de seu tempo”. Possuidor de um estilo próprio, era isento de “pseudos regionalismos ou nacionalismos artificiais e outros ismos”, fazendo poesia “sem medo da rima, / sem medo do verso”.

Com seus Poemas Grotescos, Tarcísio Meira César foi bastante elogiado pela crítica da época, fazendo-se eterno e “nobre como o inverno”. Para ele, a poesia “tange os ventos e os navios / constrói a mais antiga madrugada. / Veste a noite de verde e inventa a amada / e as fadas que navegam por seus rios”. Admirador declarado de Edgar Allan Poe, sua obra poética mereceu comentários elogiosos de nomes nacionalmente conhecidos, a exemplo de Jorge Amado, José Geraldo Vieira, José Condé, Otto Lara Resende, Gilberto Freire, Ivan Lins, Pessoa de Morais e Fábio Lucas.

Sobre ele, disse Gilberto Freire: “jovem inteligente com superior vocação a crítica criadora”. Como escritor e ensaísta, ele foi um dos melhores “da nova geração brasileira”. Experiente, polido e impulsionado por força própria, sabia “os caminhos poucos palmilhados das descobertas estéticas”. Filósofo nato, Tarcísio Meira César desenvolveu toda a sua vida profissional e literária fora dos limites de sua província. Mas, mesmo assim, sua poesia não passou despercebida à apreciação dos grandes nomes das letras paraibanas, a exemplo do escritor e político José Américo de Almeida, que em carta ao poeta, emitiu o seguinte juízo: “Você extraí do vulgar uma novidade oculta que mais parece uma invenção, por ser atrativo.

 Eu estava com o propósito de nunca mais escrever a palavra ‘telúrico’, mas você é telúrico”. “É óbvio – diz Perboyre Vasconcelos – que ninguém é entendido cem por cento”. Tarcísio Meira César não foge a essa regra. Precisa ser estudado para ser melhor compreendido e valorizado, dentro e fora de sua província. A cidade de Patos e a Paraíba perdem com o esquecimento ao qual, lentamente está sendo condenado o maior vate das Espinharas.